Psicodelismos em prosa

À Quintana:

E todos aquilos
que um dia atravancaram o meu corpinho
(...)

Eles passaram.
Eu passarinho! v.V

_Aline, 21/03/2015.



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quarta-feira, 18 de março de 2015

Amor de figueira



abraço
envolvente




ou
morte
por estrangulamento
?






_Aline, 18/03/2015.
| para um Príncipe, desencantado |



sábado, 14 de março de 2015

Pós-parto


Era noite. 
O interfone tocou, chamando-a para a rua. Ela saiu. Foi recebida com céu estrelado e paineira florida. Ambos a lhe saudarem com a mensagem de que a vida permanecia pulsante apesar da chuva torrencial que desabara nas últimas horas. E ela, de repente, percebeu que os porquês eram desnecessários, que a vida é um grande mistério e que querer entendê-la  e explicá-la pode ser só mais uma maneira de não vivê-la. De não estar inteira nela e nela inteira. E percebeu que viver pode ser apenas um sonho em estado de vigília [seja como for, sempre se acorda]. E, de súbito, deu-se conta que não mais sequer sabia se sonhara ou despertara. Mas tinha duas certezas: pulsava, e via-se recém parida [dos escombros].

_Aline, 14/03/2015.



Maria-sem-vergonha, pelos olhos de Margot Félix.
















segunda-feira, 2 de março de 2015

Aurora_


é um menino
e escolheu chamar-se
Bernardo
é filho do ínfimo
das coisas invisíveis

nasceu da violência abrupta da água
batendo na pedra
_penetrando
vão por vão, fenda por fenda
até o lodo_

e do encontro fugaz
do sol com a lua
num dia nublado

Bernardo é vaga-lume e orvalho
ponto de luz da noite escura
e acalento das manhãs de inverno

Bernardo é Aurora_


_Aline, 02/03/2015.


Fotografia de Margot Felix

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

naufrágio [em amar de rosas]


e por mais uma vez querer coroar-se em flor
termina escorregando em água e encontrando
chão

recolhidos os cacos restam
buracos

um cotovelo ferido
e uma dor que não cessa


"viver é perigoso"

Fotografia de Kalyn Hawkins






















_Aline, 23/02/2015.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

<< in lumina dor >>


quando sol e lua se eclipsam
o que era possu ir |?|
vira poço
sem fim

ele aquece
ela se derrete

__e
o que antes a-penas
pensava em partir

agora sabe. só
querer
estar__

enfim ...

_Aline, 19/12/2014.


Arte de Amadeo Modigliani, 1916.





segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

sábado, 13 de dezembro de 2014

<< ressonância >>


acordou pelo avesso__

vísceras bagunçadas
alma em chamas
e uma estranha alegria atravessada.

ouvia fanfarra.
acreditou ser carnaval

mas não podia. marcava dezembro
e chovia.

saiu da cama
fez café. lavou a louca

e caiu na real

__era o coração que batia


_Aline, 13/12/2014.




quarta-feira, 6 de agosto de 2014

coisa de anjo _mensageiro

| para Gabriel |

um dia ele disse que eu era ar para ele
todo dia ele é ar em mim

quando adoeço
ele me manda comer suspiros

e quando suspiro
lembro-me dele

hoje é seu dia
e eu queria ser criativa e expressiva

mas não sou boa artista
então
comprei suspiros

( de todas as cores ! )


_Aline, 06/08/2014.




quinta-feira, 22 de maio de 2014

je ne t'aime plus


é que a gente nunca sabe bem onde é
que são embalados os nossos afetos

a gente sempre pensa que é nas pessoas
que eles estão
mas
pode ser que estejam 
guardados

numa cristaleira marrom de
vidro trincado e espelho no fundo

ou na radiola amarela comida de caruncho
e viva ainda apenas e muito na memória 
da infância
resgatada no instrumental de uma canção francesa

Et j'ai crié, crié...


_Aline, 22/05/2014.




terça-feira, 29 de abril de 2014

fome



hoje permiti-me a extravagância
de um belo almoço
_________e estou comendo : corações



_Aline, 29/04/2014.




sexta-feira, 4 de abril de 2014

Capitu


é possível que a anatomia seja enlouquecida
pois que sinto o coração batendo no meio
das pernas



_Aline, 04/04/2014.


Cena da minissérie Capitu, por Luiz Fernando Carvalho.



"conhecia as regras do escrever
sem suspeitar as do amar." | M. A. |



domingo, 30 de março de 2014

nem acerolas nem frutos de amar


ele gostava do mar
- e de frutos -

ela gostava de sucos
- e de amar -

ensaiaram um tango pularam carnaval

acabaram em scotch
e pizza

- ele no scotch ela na pizza -

_Aline, 30/03/2014.











sábado, 14 de julho de 2012

no encantado mundo dos amores possíveis


não há borralheira
cinderela
ou bela adormecida


sapos não viram príncipes com um beijo
e nobreza é estado de alma


no encantado mundo dos amores possíveis


relação é síntese
produto de conflitos


nó[s] é tentativa forçada de laço
e um par se faz de dois inteiros


no encantado mundo dos amores possíveis


sabe-se
:
o “felizes para sempre” cabe na efemeridade d'uma tarde de sol
de um dia de inverno.


(Aline Barra – 13/07/2012)



                               





 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

saída à francesa



ele veio assim, com um ar quieto
e foi colhendo quase tudo de mim

levou flores
confidências
poesia
tempo

pensei que me tiraria
o chão
o ar
a voz

mas não
preferiu retirar-se [a si]

(Aline Barra – 13/02/2012)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Virada para a lua

(Tarsila do Amaral, A Lua)


É difícil manter os pés no chão
quando a realidade (?) me atropela
me estupra
me violenta a alma

Minha essência é aérea
meu mundo
in-concreto
sou das imagens
dos sentidos

Quero Os Girassóis
e os Campos de Trigo
quero A Lua, o Sol Poente
e Meninos Soltando Pipas

Quero dormir Alice
e acordar Clarice

Quero os filmes franceses
as asas que me cortaram
e as sapatilhas que não calcei

Quero de volta
a fome no peito
o pé na estrada
e o ventre fértil

Quero poder sonhar
e fazer da vida o meu sonho

Ainda que eu permaneça virada para a lua.


(Aline Barra – 14/07/2011)

sábado, 30 de outubro de 2010

Amor Platônico

Eu o vi
Casualmente
Ele nem parecia tão irresistível assim
Mas tinha qualquer coisa que me encantava

Talvez os olhos
(verdemente hipnotizantes)
Ou a pele
(delicadamente branca)
Como saber?
Não importava...

Ele se tornaria personagem da minha fantasia
E seria perfeito
(como os poemas de Vinícius ou as crônicas do Pena)

Quimérico e intocável
Foi com ele que descobri:
A alquimia das palavras
pode ser quebrada pela in-sensibilidade da química

Enfim,
É como disse o poeta de Itabira:
"Se dissipou, não era poesia"!

(Aline Barra - 08/08/2010)