Psicodelismos em prosa

À Quintana:

E todos aquilos
que um dia atravancaram o meu corpinho
(...)

Eles passaram.
Eu passarinho! v.V

_Aline, 21/03/2015.



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sobre amor. e carnaval


você percebe que encontrou o amor
quando no carnaval _aquela festa dionisíaca
em que muitos deuses estão presentes
sua atenção se volta para o bloco de palhaços e o culto ao deus menino
                                                                                                            [Eros

e percebe que encontrou o amor
quando o carnaval passa por você
percorrendo suas veias em cada nova volta da fanfarra
_despertando com balão mágico vidas há muito adormecidas

e você finalmente descobre o que é carnavalizar
quando se pega dançando consigo
_em meio a tantos deuses

porque sabe que apenas um tem a chave que abre a tua caixa
de Voluptas

_e que ele já está no teu corpo
                                           [que dança.


_Aline, 25/02/2015.







segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

naufrágio [em amar de rosas]


e por mais uma vez querer coroar-se em flor
termina escorregando em água e encontrando
chão

recolhidos os cacos restam
buracos

um cotovelo ferido
e uma dor que não cessa


"viver é perigoso"

Fotografia de Kalyn Hawkins






















_Aline, 23/02/2015.


domingo, 1 de fevereiro de 2015

deserto__

                     

                                espelho.
                                nós



                           
                                silêncio .
                                entre o céu e o mar

                                                                           __azul



Cena do filme "Deserto Azul", de Eder Santos.



_Aline, 01/02/2015.

*Inspirado no filme "Deserto Azul", de Eder Santos | MG - Brasil.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

verão **


a gente se queima rasga descama recompõe
e ao fim

               embriaga-se em creme de passos
                                                        [ ao rum.



_Aline, 19/01/2015.





sábado, 17 de janeiro de 2015

concreto


palavra silenciada
fantasia partida
realidade
afixada

entre paredes de duro branco
pele descamada e poesia ressequida

único toque veemente? o do telefone
a voz doce: para ouvidos outros


rosa desejou o mar o ar a redoma
qualquer coisa que protegesse do vento
da realidade

em vão: só encontrou cimento e repetição

[que seja vento
e leve
então]


_Aline, 17/01/2015.


Fotografia de Margot Félix




sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

<< érotique >>


inscrito na alma
descrito no tempo
gestado na poesia
                             _de desenhos imaginários

gravado no corpo:

uma palavra para cada curva
reticências pra cada vão
quebras rítmicas para decidas íngremes

_contenção instintiva:
o amor é violento_

[Rosa é flor caótica
ornada de espinhos
por temer invasões]

erótica é a existência do amor
que precisa suportar as erupções
pra manter ativo o vulcão
                                         _e prover solo fértil
na lava arrefecida_


_Aline, 02/01/2015.


Fotografia de Anderson Mendonça


domingo, 21 de dezembro de 2014

** solstício **


acordei rosa. flor
mas primavera já era

ouvi passos. lentos
é o tempo
trazendo de longe. verão*


_Aline, 21/12/2014.


Arte de Vincent van Gogh


"Se não ardemos, quem iluminará a noite?"
| Henri Michaux |



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

<< in lumina dor >>


quando sol e lua se eclipsam
o que era possu ir |?|
vira poço
sem fim

ele aquece
ela se derrete

__e
o que antes a-penas
pensava em partir

agora sabe. só
querer
estar__

enfim ...

_Aline, 19/12/2014.


Arte de Amadeo Modigliani, 1916.





segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

sábado, 13 de dezembro de 2014

<< ressonância >>


acordou pelo avesso__

vísceras bagunçadas
alma em chamas
e uma estranha alegria atravessada.

ouvia fanfarra.
acreditou ser carnaval

mas não podia. marcava dezembro
e chovia.

saiu da cama
fez café. lavou a louca

e caiu na real

__era o coração que batia


_Aline, 13/12/2014.




segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

amadores


uns amam de cor e ação
outros com o fígado.

aqueles mentem
estes res___________sentem.



_Aline, 08/12/2014.



sábado, 6 de dezembro de 2014

da morte da sombra


após mergulhos profundos em espaços aéreos
pos-se a andar de costas
e _louca
tropeçou no meio fio

caiu
batendo a cabeça no concreto do canteiro
tocando em seguida o asfalto _já colorido
do vermelho que lhe escapava do crânio

um casal de enamorados tenta ajudar
_em vão
o samu não atende ao chamado
e o buraco na cabeça não pode ser estancado apenas com um pedaço de tecido
o pulso escapa ao corpo e termina derramado _na vi(d)a


_Aline, 06/12/2014.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

em vão|s|

guardada no silêncio
sem nada ouvir e achando inútil falar
passou a comer

começou com uma letra ou outra
não sei bem se gostou
em todo caso _tem engolido palavras inteiras
agora

e tem hora que as sente ziguezagueando dentro de si
feito serpentes _desorientadas
em dia de sol escaldante
[ sofre _de severos comichões nestas horas ]
       
e enquanto se revira toda
tentando digerir
verbos irregulares e sujeitos indefinidos
vai-se perdendo

_(d)a língua
em vão(s) de tanto pen(s)ar


_Aline, 04/12/2014.


Cena de "Capitu", de Luiz Fernando Carvalho.

domingo, 30 de novembro de 2014

das conjugações verbais



temo
mas quero te(A)mar

deixa ?



_Aline, 30/11/2014.
_para um "arcanjo" tímido



Cena do filme O Segredo dos Seus Olhos



sábado, 29 de novembro de 2014

escafandristas


a gente vive reivindicando amor
queremos ser amados queremos amar queremos amor
queremos e até amamos

porque amar é fácil
sofrer por amores perdidos ou não correspondidos
é infinitamente fácil - temos talento para o sofrimento e a vitimização

insuportável é ser amado

de todas as violências
ser amado é a que mais assombra

saber-se amado é paralisante

disseram os gregos que eros é união e potência
discordo
eros é - antes
nó na garganta dor na barriga e pernas bambas

eros é desconstrução desabamento inundação

suportar o amor não é para o corpo - frágil
é para a alma
bailarina - nua e míope

_Aline, 29/11/2014.




** Dialogando com o poema "corpo é casca deferida", de Líria Porto.

sábado, 22 de novembro de 2014

da trajetória do desejo (!)


abro a porta e ele se mostra
tímido
meio sem lugar
sem conseguir dissimular o apetite que o consome

(definitivamente a lua e o conhaque não são bons companheiros)

tento o tato
quem sabe o verbo ?
não. ele gosta de carne

proponho rodopios
ele prefere saltos

| rendida |
solto me

pois poesia e castidade não se dão


_Aline, 22/11/2014.


Cena do filme A Insustentável Leveza do Ser

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

V e r m e l h o ______


o coração o sol o fogão

Vermelha
a paixão a cama a menstruação

Vermelho
o pudor o poder Stop

Vermelhos
o corte a corte
a China, o Tibet e o Japão

Vermelha
a vida

Ver-me-lho em mim


_Aline, 05/11/2014.


Pablo Picasso, O Sonho.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

________________________________quem é a Mulher Barbada:


era confeiteira de sonhos

mas comeu vazios
e teve penas sem ar

aí foi ao círculo
ganhou trapézios pernas voz e fome

e agora alimenta desejos
come a vontade 
e tem peito
(s)



_Aline, 15/09/2014.




Diálogo com a canção "A Mulher Barbada" de Adriana Calcanhoto: http://www.youtube.com/watch?v=xSs5iZt2XFU

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

coisa de anjo _mensageiro

| para Gabriel |

um dia ele disse que eu era ar para ele
todo dia ele é ar em mim

quando adoeço
ele me manda comer suspiros

e quando suspiro
lembro-me dele

hoje é seu dia
e eu queria ser criativa e expressiva

mas não sou boa artista
então
comprei suspiros

( de todas as cores ! )


_Aline, 06/08/2014.




quarta-feira, 16 de julho de 2014

Augustine: a histeria e a ciranda do sintoma


Cena do filme Augustine, de Alice Winocour, 2013.


I - o corpo em cena


ante o aparato técnico
câmera médico e a pausa hipnótica 

desenha-se 
a trajetória do padecimento

a via crucis no corpo

na histérica 
expectativa de registro e redenção

ela despe-se ao olhar do médico
e tece a teia que a enreda 

a arte da enfermidade

convulsões letargias delírios
contrações espasmos síncopes

é a dialética mística do encanto!


II - Augustine


em cena encena
dá corpo ao sintoma
num balé entre pólos

fecha abre 
desfalece enrijece 

revela e reivindica

dá-se inteira
ao drama do desejo

segue a trama 

encena impressiona afeta
e sai discreta
não invisível

expõe: a combustão histérica re/clama re/conhecimento 


_Aline, 15/07/2014.


** Escrito a partir do filme" Augustine" (França/2013), de Alice Winocour e do texto "A invenção da histeria" de Rafael A. P. Junior.