Psicodelismos em prosa

À Quintana:

E todos aquilos
que um dia atravancaram o meu corpinho
(...)

Eles passaram.
Eu passarinho! v.V

_Aline, 21/03/2015.



terça-feira, 29 de abril de 2014

fome



hoje permiti-me a extravagância
de um belo almoço
_________e estou comendo : corações



_Aline, 29/04/2014.




sexta-feira, 4 de abril de 2014

Capitu


é possível que a anatomia seja enlouquecida
pois que sinto o coração batendo no meio
das pernas



_Aline, 04/04/2014.


Cena da minissérie Capitu, por Luiz Fernando Carvalho.



"conhecia as regras do escrever
sem suspeitar as do amar." | M. A. |



domingo, 30 de março de 2014

nem acerolas nem frutos de amar


ele gostava do mar
- e de frutos -

ela gostava de sucos
- e de amar -

ensaiaram um tango pularam carnaval

acabaram em scotch
e pizza

- ele no scotch ela na pizza -

_Aline, 30/03/2014.











quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

das contradições do amor

_para Catarina e Petruchio [codinomes]

que se amavam
até as pedras da rua já sabiam

mas acreditavam que era chegada a hora
da despedida

noite regada a vinho
queijo e
nó nos peitos

embriagaram-se mais uma vez
- segundo disseram:
a derradeira vez -
de lua e amor

amanheceram marejados
transbordados de amor despedido

ela tinha as malas prontas e
disse ter acordado

 part ida

_Aline Barra - 18/12/2013



sábado, 17 de agosto de 2013

uma outra estação


o calendário diz que é inverno
mas meu coração decretou verão

chega de amor na caverna
amor sombra

quero amor solar
olhos nos olhos
mãos nas mãos
pés no chão
e caminhar junto

quero atritos conflitos e sínteses
corpos quentes e armaduras descansadas

quero amor maduro
com passado no passado
feridas cicatrizadas
e presente enfeitado de laço

quero a flor desabrochada
as raízes submersas
e a vida se abrindo

quero amar!
é verão.


Aline Barra – 17/08/2013



terça-feira, 16 de julho de 2013

dos vácuos do amor


enquanto ela invertia toda a sua lógica estética
para dar cabimento àquela súbita paixão
ele dedicava seu tempo ao desinteresse
por paixões
por si
por ela



_Aline Barra – 16/07/2013

segunda-feira, 1 de julho de 2013

inferno astral [?]


é o sol - em câncer -
re - apossando - se de mim

sim
estou em chamas


Aline Barra - 01/07/2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A história (inacabada) do amor:


já foi compromisso
depois romantismo
ensaiou ser hippie
e acabou movimento sem teto

foi também bossa nova
nouvelle vague
e agora parece funk

pretendeu ser poesia
mas sua métrica era desarmônica
rimava com cor
e terminava em dor

 . . .

"quem inventou o amor
me explica, por favor"!


(Aline Barra – 13/06/2013)



sábado, 27 de abril de 2013

pretérito perfeito


essa coisa de tentar conjugar o passado no presente é tempo que não cabe. é natureza morta. é como tentar tomar o café adormecido na garrafa. não desce. já não possui o sabor e o aroma de outrora. e ainda está frio. por outro lado, o reencontro com o passado é o melhor caminho para deixá-lo ser o que é: 
memória.
história.
e ponto. 

(Aline Barra - 27/04/2013)



segunda-feira, 18 de março de 2013

Parodiando Neruda...


Se nada nos salva 
dos desprazeres 
(da vida)
que pelo menos a poesia nos salve 
da morte
(em vida)
[!]

(Aline Barra – 18/03/2013)




quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Das ampliações das lentes paulistanas: solidão



Arte de Michelangelo Merisi da Caravaggio




São Paulo é uma máquina de ampliar as coisas.
Aqui tudo é grande.
E eu que já desconfiava, agora tenho certeza: sofro de solidão [GRANDE].
Mas não é solidão de falta de companhia.
Não é gente o que me falta. 
É alma; afim. Enfim.
Sofro de solidão de alma sem eco.
Não sei se meu grito é mudo. Ou se é a cidade que faz muito barulho.
Ou ambos.

Já troquei de cidade. 
Inútil.
Não consigo trocar de alma.


(Aline Barra – 06/02/2013)


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

amor de carnaval em chuva de verão


caia uma chuva mansa
colorida de confetes
e o amor passou com olhos brandos
de quem colhia o carnaval sem pressa

olhou-me
com leveza
fez-me sorrir

depois parou
voltou
e disse ter gostado de algo em mim

talvez o enfeite de miney em minha cabeça

mas acho que não
porque ele preferiu enfeitar-se do vermelho da minha boca

- antes de seguir o trio elétrico –

(Aline Barra – 04/202/2013)



** Foto de Margot Félix. Vale a pena conferir outros olhares: https://www.facebook.com/MargoFelixFotografia


domingo, 27 de janeiro de 2013

m-o-s-a-i-c-o

 - para minha mãe, que aprendeu a construir mosaicos



eu era
só
cacos

a psicologia foi que me colou
usando fios - de poesia



(Aline Barra - 27/01/2013)




** Fotografia de Margot Félix, outros cliques em: https://www.facebook.com/MargoFelixFotografia


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

a vapor [ barato ]


era para ser assim:

matarias tu a minha sede
aquecerias os meus frios 
ofertarias a mim tuas abundâncias

eu, de mim
cairia 
aos teus encantos ...

acontece que não somos bons 
em pactos

tu guardas a sete chaves tua riqueza
e eu ...

eu ...
- ou fácil não me encanto 
ou encanto e desencanto -
sou volúvel

mas adoro flertes
e você pode me seduzir, se quiser 

(Aline Barra - 11/01/2013)



** Fotografia de Margot Félix. Mais flertes em: https://www.facebook.com/MargoFelixFotografia

sábado, 22 de dezembro de 2012

Piaimã

Tarsila do Amaral, São Paulo.


tuas linhas retas recusam minhas curvas
sinto falta do sol

tuas luzes brancas desbotam-me a alma
e sinto frio

teu excessivo ar refrigerado me apodrece
sinto-me enlatada

e sinto muito

estou febril
tou sem voz
sem ar

ressecada
                          di  s   s  ec   a  da

sem cor

cadê teu modernismo
onde se esconde tua poesia
   [pau-brasil

?

era eu Macunaíma
te dava novo brasão

apagava "Non ducor, duco"
e escrevia "Piaimã"
                     [o comedor de gente


(Aline Barra – 22/12/2012)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Das janelas que dão para o lado de dentro

- para Luiz Fernando Carvalho

Hoje eu conheci um homem que constrói imagens em busca de janelas
Ele me comoveu
Era um moço alto
, elegante
Chegou como chegam as pessoas grandes do lado de dentro
Sem estardalhaço

Sentou-se
Acompanhado de outro gigante discreto
Ambos tinham olhos que abriam portas para arcaicas lavouras
- e para as distâncias que o amor pode abarcar -

Mas o homem que busca janelas me comoveu
Sim. Eu já disse

O que eu não disse é que a primeira delicadeza a me comover nele
Não vinha da mitopoese dos seus relatos
Mas das meias verdes que escapavam de suas botas

Aquelas meias provocaram meu imaginário
Era a segunda vez que um homem de terno me desviava a atenção para o improvável
: a cor de suas meias

O primeiro foi Ariano Suassuna
que foi receber homenagem - lá na terra de el Rei –
e levou sua poesia nos pés
, vestida de vermelho

Agora este
que veio para homenagear
e trouxe também nos pés
a lavoura que começou a cultivar quando ainda via pela janela dos olhos de sua mãe

Hoje eu conheci um homem que constrói imagens
Usa meias verdes
É amigo do homem de meias vermelhas
E abre janelas que dão para o lado de dentro.


Imagem do filme Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho



(Aline Barra – 29/11/2012)

Texto motivado pela conversa, promovida pela Balada Literária 2012 (http://baladaliteraria.zip.net/), com Luiz Fernando Carvalho e Raduan Nassar, respectivamente diretor do filme (2001) e autor do livro (1975) Lavoura Arcaica. 

domingo, 30 de setembro de 2012

Carta ao poeta

Sabe, Manuel

aqui não é Pasárgada
não sou amiga do rei
não faço ginástica
não ando de bicicleta
não monto burro brabo

e ainda preciso pintar a cara se quiser ter o pão

mas quando de noite fico triste
- com vontade de me matar - 

finjo que não noto o rodopiar desvairado dos ponteiros do relógio
paro o tempo
ao meu prazer
como se fosse eu
amiga do rei

ouço o cantar ensurdecedor dos pássaros de lata
como se ouvisse Vinícius proseando
- para uma menina com uma flor - 

É, Manuel

aqui não é como em Pasárgada
não sou amiga do rei
não tenho tudo o que quero
não é outra civilização 

e tampouco há modo seguro pra impedir a má educação

mas quando de repente fico triste
- triste de não ter jeito - 

re-invento-me amiga do rei
pinto-me de poeta
e descubro que sou feliz
assim

Poeta (!)

(Aline Barra - 30/09/2012)


Imagem do filme O Palhaço, de Selton Mello

"o gato bebe leite
o rato come queijo
e eu sou palhaço!"


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

[cor]respondência sem remetente com destinatário ausente



Sim estou contente re-alicerçando os planos pouco mudou com o tempo

passado

talvez a cor do céu mas o nó na garganta ainda

sufoca

a vida e o nosso amor o que será [?]

...

(Aline Barra - 31/08/2012)


*** Breve diálogo com a canção de Thiago Pethit: http://www.youtube.com/watch?v=pXBIWw185oY&fb_source=message

sábado, 14 de julho de 2012

saudade prematura


ela achou que seria fácil
não notou os laços

agora enfeita-se com um nó
na garganta


(Aline Barra - 13/07/2012)


Antropofagia - Tarsila do Amaral