Psicodelismos em prosa

À Quintana:

E todos aquilos
que um dia atravancaram o meu corpinho
(...)

Eles passaram.
Eu passarinho! v.V

_Aline, 21/03/2015.



quinta-feira, 14 de julho de 2011

Virada para a lua

(Tarsila do Amaral, A Lua)


É difícil manter os pés no chão
quando a realidade (?) me atropela
me estupra
me violenta a alma

Minha essência é aérea
meu mundo
in-concreto
sou das imagens
dos sentidos

Quero Os Girassóis
e os Campos de Trigo
quero A Lua, o Sol Poente
e Meninos Soltando Pipas

Quero dormir Alice
e acordar Clarice

Quero os filmes franceses
as asas que me cortaram
e as sapatilhas que não calcei

Quero de volta
a fome no peito
o pé na estrada
e o ventre fértil

Quero poder sonhar
e fazer da vida o meu sonho

Ainda que eu permaneça virada para a lua.


(Aline Barra – 14/07/2011)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Confissão


Pelejo
para que meu coração
não se renda a penas
para que não seja [só] apenas
um órgão muscular
oco

Sonho
para que ele [tendo penas]
construa asas
e reaprenda a voar

No entanto
confesso:
falta ar!



(Aline Barra – 05/07/2011)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Pontu.ação:



Há os que preferem os pingos nos is e os pontos finais. Pragmáticos. Eu não. Enamoro-me com as ênfases bem humoradas das exclamações (!!!) e as intermináveis possibilidades das reticências (...). Portas cerradas e janelas com grades são portais pelos quais não transitam seres alados!


(Aline Barra – 15/06/2011)


terça-feira, 7 de junho de 2011

Flagelação

chega ele, de novo
sequioso em fazer de mim
gato e sapato

se não corta-me o vazio
o faz, impiedosamente
o frio

(o meu inferno atende pelo nome
inverno)

E DÓI!

(Aline Barra - 06/06/11)



quarta-feira, 25 de maio de 2011

Expiação

DESEJEI
olhar
secreto

atrapalhei-me
troquei os olhos
pelas mãos

agora já não sei
espio-te?
ou expio (eu) ?


(Aline Barra - 25/05/2011)

terça-feira, 17 de maio de 2011

O amor...

esta engrenagem
ideal
vermelho-pulsante

que no peito 
aparece como aceleração
e na face 
como coração

quem a saberá?

começo a pensar se não é
 só
 questão
de 
co(n)centração...


(Aline Barra - 17/05/2011)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

SerTão



sertão é como sou
falta-me muito
e estou em excessos

sertão é demais
melhor é ser não

e pensar que a diferença
é uma única consoante



(Aline Barra - 06/05/2011)


segunda-feira, 2 de maio de 2011

palavras ou silêncio?

ainda não nos foi possível
ajustar a linguagem
- exceto a do corpo -


(Aline Barra - 02/05/2011)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

hipocondria

dói a cabeça
cheia
con-ciência

dói o estômago
indigesta inapetência

dói o ventre
infértil
não libert-a-dor


(Aline Barra - 13/04/2011)



quinta-feira, 7 de abril de 2011

Via Crucis


Cheguei à vida por intermédio de tuas mãos
Convivemos por onze delicados dias
Depois nos perdemos


Pisei outras pedras - menos cheias de história -
Avistei montanhas sem o entrecorte de tuas cúpulas
E arranha-céus sem tuas coroas imperiais

Ouvi vozes
Que não eram as dos teus sinos
Não senti saudade tua

Troquei teus templos dourados
Por outros nada barrocos - tampouco sagrados -
Aventurei-me no profano
Segui
Ignorante de que havias construído de tuas pontes
Entre nós

Estou de novo em tuas entranhas
E cada beco teu
Parece devolver uma parte minha
Reintegro-as

Absorvo tua arte
Descubro novos ofícios
Restauro-me
Restituo em prosa
O que me revelas em dor


E em imagem onírica posso -  ao fim - vislumbrar 
tua Maria Fumaça - em chamas -
Cruzando o horizonte 
Levando consigo o cale-se 
Que um dia foi meu.


(Aline Barra - 07/04/2011)


Fotografia: Netun Lima

segunda-feira, 28 de março de 2011

"é que Narciso acha feio o que não é espelho"

A Metamorfose de Narciso - Salvador Dali


Ela era cheia de nuances
Mas isso, provavelmente, ele jamais saberá
Porque olhou-a, mas não a viu
Tocou-a, mas não a sentiu

Dela, ele só conseguiu ver uma face
Face esta que, aliás, pareceu-lhe desagradável
Ela era como um espelho de avessos
Refletia o que ele guardava a sete chaves

Como o sultão, que por medo de ser traído
mandava decapitar suas amantes ao amanhecer
Ele escolhera decapitar seus relacionamentos
tão logo estes ameaçassem sua segurança

E ela, ao contrário de Scherazade
não quis iludi-lo

Preferiu ser decapitada
para que ele seguisse seguro
e alheio à sua coleção de histórias sem rosto.


(Aline Barra - 28/03/2011)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Coração partido emenda?



Dizem que coração partido não cola
Descola
Eu acho que cola
mas quebra de novo
Do meu, só fazendo um mosaico
pois, de tanta fragilidade
já quebrou-se muitas vezes
É puro caco
Costurado à mão, com poesia
E cá estou eu
alinhavando mais um pedaço
Será que emendo?



_Aline,  20/02/2011.




domingo, 6 de fevereiro de 2011

Conjugando tempo e contratempo



obstáculo imprevisto este medo do presente
medo do teu presente no meu
o passado que me oculta em sombras
é o mesmo que me acolhe
- como o aconchego de um abraço conhecido -
quanto ao futuro
aquele tem um sorriso ameaçador
parece saber que o presente é efêmero
veículo de partidas, portador de vazios
e as partidas e os vazios são igualmente ameaçadores
aqui tempo não tem verbo
e contratempo não se conjuga.


(Aline Barra - 06/02/2011)


domingo, 9 de janeiro de 2011

A flor do oriente

Ela poderia ter sido cortesã
seria como a Geni do Chico:
dos cegos, dos retirantes
de quem não tem mais nada

Mas escolheu ser gueixa
(toda mulher esconde uma gueixa)
"feita apenas para amar
para sofrer pelo seu amor
e pra ser só perdão"

Decidiu ser gueixa
pelo mistério
As gueixas são, ao mesmo tempo
encanto e mistério
fascinação e lamento

Um dia foram encantadas
(de amor)
E quiseram o artifício do encanto
Tornaram-se, por isso
numa só obra
arte e artista

Encantaram!

Ela poderia ter sido cortesã
Mas escolheu ser gueixa
Escolheu ser aquela que encerra em si
o mistério
de todas as outras

E revela
o desejo
de todos os outros.

(Aline Barra - 09/01/2011)






Escrito a partir do filme Mémórias de Uma Gueixa, de Rob MArshall, EUA 2006.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A face (nua) do Palhaço

O rosto,
agora sem pintura
escondia-se por debaixo do chapéu

Um pouco mais distante
menos colorido, talvez
Mas ainda vestido do mesmo sorriso
e despido pelo mesmo olhar

O Palhaço andava sumido
provavelmente, levando alegria
a outros picadeiros

Ou, quem sabe
recluso
imerso em sua tristeza
compondo o próximo auto

Era possível que as tintas ocultassem
aquele rosto cor de trigo
e até disfarçassem o sorriso acanhado
Era possível não ver o coração
contido
depois do suspensório

Só não era possível
- nem mesmo à chuva torrente
daquela noite -
desfocar o Palhaço
retratado
nos olhos sem pintura
daquele rosto
pálido.

(Aline Barra - 25/11/2010)




sábado, 30 de outubro de 2010

Amor Platônico

Eu o vi
Casualmente
Ele nem parecia tão irresistível assim
Mas tinha qualquer coisa que me encantava

Talvez os olhos
(verdemente hipnotizantes)
Ou a pele
(delicadamente branca)
Como saber?
Não importava...

Ele se tornaria personagem da minha fantasia
E seria perfeito
(como os poemas de Vinícius ou as crônicas do Pena)

Quimérico e intocável
Foi com ele que descobri:
A alquimia das palavras
pode ser quebrada pela in-sensibilidade da química

Enfim,
É como disse o poeta de Itabira:
"Se dissipou, não era poesia"!

(Aline Barra - 08/08/2010)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Esboço, meu

Um amontoado de
Desejos
Urgências
Saudade e
Fome

Um quê de
Inconstância
Melancolia
Saciedade
Sabor e
Angústia

Uma alma inquieta
vestida de fleuma.

Um olhar triste
coberto de lentes.

Um sorriso tímido
colorido de esperança.

Uma natureza audaz
apoiada em incertezas.

Uma essência recatada
despida em palavras.

Um universo de sonhos
estampado em poesia.

Bailarina.
Equilibrista.

Náufraga
do amor.
Navegante
na vida!

(Aline Barra - 24/10/2010)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O reverso do Palhaço

De fala romântica
E coração cigano
O Palhaço também era
Caixeiro viajante
(vendedor de sonhos)
Exímio negociante
Hábil na arte do encanto

Na bagagem
Uma prateleira

Guardava olhar doce (e ávido)
Atitude generosa
Sentimentos confusos
E uma peculiar coleção de amores

A sacola amarela levava
Os apetrechos de pintura

Pintava rostos e coisas
Incluindo quadros e emoções

Pintava a vida
Evitava a dor
Pintava música
Cantava cor

Mas o artigo mais cobiçado
Do Palhaço vendedor
Não estava na prateleira
Nem na sacola amarela
Tampouco eram os sonhos

Ele tinha qualquer coisa que não se vê
Qualquer coisa que só se pode ter
De olhos fechados...

(Aline Barra - 11/10/2010)



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Palhaço e a Dama Vagabunda

Em meio à boemia
Era a poesia o que os unia
Ele
multi artista boêmio apaixonado
Ela
perdida
Sem arte nem paixão
tudo que sabia era transformar dor em poesia

Ele
um misto de Dom Quixote e Arlequim
hora vestido de armaduras
hora envolto em retalhos multi coloridos
Ela
Dama náufraga
Viu-se Colombina
serva
dos teus encantos

E como por encanto
no instante em que os pássaros cantaram
e os relógios pararam
a poesia (deles) se fez presente
E ela conseguiu ganhar-lhe o coração

Mas,
os relógios tinham que seguir
E até mesmo os pássaros
precisavam de descanso
para renovar teu [en]canto...

(Aline Barra - 10/09/2010)



quinta-feira, 15 de julho de 2010

Quem sou eu:

Posso ser de tudo um pouco
Cada dia uma
Depende do tempo
Se tem sol ou tempestade
E toda auto descrição será limitada
Tenderei a enfatizar minhas qualidades
(para conquistar tua admiração)
Ou...
Num surto de modéstia ou melancolia
Realçarei meus defeitos e angústias
(talvez, pra despertar tua compaixão)
Mas a descrição permanecerá insuficiente
Primeiro
Pela razão de sermos seres inacabados
Em constante metamorfose
Depois
Porque por mais que eu diga de mim
O teu olhar é que me fará mais bela ou mais fera.


(Aline Barra - 15/07/2010)